Fatos e Factoides no Dia Mundial da Imprensa

Data: 13/04/2018

Autor: Joel Della Pasqua


 

O escritor francês André Gide, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1947, chamava de jornalismo a tudo o que será menos interessante amanhã do que foi hoje. De certo modo, o escritor entendia o trabalho da imprensa como algo em constante velocidade e em um contínuo processo de transformação e superação. A transformação e superação da notícia. 
 
No entanto, uma notícia só pode ser concebida por meio de fatos. Fatos políticos, fatos sociais, fatos econômicos, fatos culturais, fatos públicos, fatos privados, fatos, fatos e mais fatos. Se notícias se tornam velhas, perdidas e esquecidas em inutilizadas folhas de jornais, relegadas a um tempo substituído por outro, nem sempre os fatos poderão ser superados. Eles deixam suas marcas que avançam do passado ao presente e lançam centelhas que podem incendiar o futuro. A responsabilidade, portanto, diante da informação dos fatos é inquestionável. 
 
Então, resta-nos perguntar: o que, de fato, é um fato? Um fato pode ser concebido como um evento manifestado de modo concreto no tempo e no espaço, e desse resulta uma versão da verdade, e a essa verdade, outras conectar-se-ão. E a partir dessa definição, uma nova indagação poderia ser elaborada, acerca do que seja a verdade. Divagações filosóficas à parte, podemos entender e nos certificar acerca da intrínseca relação entre fato e verdade. Supostamente, essa é uma verdade.
 
Neste dia em que se comemora o Dia Mundial da Imprensa, refletir sobre fato e verdade é mais que adequado. É uma necessidade em tempos nos quais a imprensa é mais do que a impressão de folhas informativas, como foi de Gutenberg aos jornais da contemporaneidade. É também mais do que a veiculação de notícias na Era da Rádio e, posteriormente, na Era da Televisão. Nestes tempos atuais, em que alguns teóricos chamariam de Modernidade Inacabada e que outros chamariam de Pós-Modernidade, sofistica-se, tecnologicamente, na Era da Internet, a circulação de fatos que geram notícias e um novo conceito se liga ao cotidiano da imprensa: a pós-verdade. 
 
A revista britânica “The Economist” chama de pós-verdade “a fragmentação das fontes noticiosas, que criou um mundo em que mentiras, rumores e fofocas se espalham com velocidade alarmante. Mentiras compartilhadas on-line, em redes cujos integrantes confiam mais uns nos outros do que em qualquer órgão tradicional de imprensa, e que, rapidamente, ganham aparência de verdade”. O falseamento dos fatos e a maquiagem da verdade não foi uma criação das tecnológicas mídias contemporâneas. Exemplos não faltam em nossa história e na história de outros países sobre a manipulação da verdade por veículos de imprensa. Só no Brasil, a verdade maquiada pelo Repórter Esso, da Era Vargas, e pela Rede Globo, na ditadura civil-militar, deu sustentação a dois regimes autoritários e antidemocráticos.  
 
Mas, atualmente, a disseminação de notícias e supostas “verdades” transcendem o que, tradicionalmente, se entendeu como imprensa. Sites, blogs, redes sociais, em um cotidiano abarrotado de narrativas, recontam, recriam e reelaboram os fatos e suas realidades. Talvez tenham se acostumado a retirar um fato de uma realidade e, assim, dar outra realidade a esse fato. Mas os equívocos que disso resultam são brutais. Constrói-se uma mentalidade humana e social a partir de mentiras, e que, tantas vezes, estão em tênue linha fronteiriça com a calúnia e a difamação.
 
A imprensa deve chamar para si a responsabilidade dos fatos e de sua real relação com a verdade. Esse compromisso é o que deve dar sustentação às funções sociais e públicas do jornalismo em relação a todos os cidadãos. O antídoto à pós-verdade e aos fatos transformados em “factoides” não é nenhuma forma de censura às novas mídias contemporâneas, mas é a realização, por porte da imprensa tradicional, do bom jornalismo, daquele que oferece ao seu público os fatos e lhe permite a melhor interpretação desses em consonância com a verdade, sendo que cabe aos profissionais de imprensa saberem discernir, de modo preciso, o que é liberdade de imprensa e que essa jamais deverá ser confundida com liberdade de empresa, sendo que a genuína verdade deve servir aos interesses da sociedade e não aos da empresa midiática que a torna pública. Além, é claro, da responsabilidade humana e social por parte de todos, que, em seu cotidiano, estão em um vertiginoso ciclo de criação e compartilhamento de fatos e informações, para que assim o façam com respeito e dignidade.
 
Em nome dos fatos e das versões éticas e responsáveis da verdade, o SINPRO-SOROCABA saúda a todos os profissionais de imprensa do Brasil e lhes deseja um feliz e honrado Dia Mundial da Imprensa.