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Congresso da UNE 68: quando o destino é o Carandiru ou o Tietê

Data: 03/06/2014

Autor: Augusto César Petta


Num dos dias que ficamos no Presídio Tiradentes, uma mulher presa em cela solitária, localizada no andar inferior, comunicou-se conosco, em voz alta, dizendo que muitos presos, à noite, eram jogados no Rio Tietê. No clima que vivíamos na época, o medo de todos foi grande. Será que eles chegariam a esse ato extremo? Será que estariam dispostos a enfrentar a repercussão altamente negativa? Enfim, nós pertencíamos à minoria de jovens que tinha o privilégio de chegar à Universidade! Na noite que se seguiu à fala da mulher, fomos acordados com gritos dos carcereiros :''Comunistas, vermelhos, subversivos, acordem, vocês irão sair daqui logo mais, mas não pensem que ficarão livres! Imediatamente, levantamos e um pensamento tomou conta de nossas cabeças: Rio Tietê!!!!

 


Fomos deslocados, às 4 da manhã, em vários ônibus, no sentido do Rio Tietê, pela Avenida Tiradentes. Chegamos ao Carandiru. Que alívio!!! Tínhamos deixado o Rio Tietê para trás.

 


Ao chegar ao Carandiru, logo percebemos que as melhores acomodações foram destinadas a nós, filhos da classe média. Os presos comuns foram retirados das suas celas e colocados em lugares em piores condições. Lembro-me de um diálogo de dois estudantes presos: ''Não podemos aceitar essa injustiça. Os presos comuns por serem mais pobres foram obrigados a ceder seus lugares. Precisamos protestar''. O outro respondeu:'' nós não temos que protestar coisa nenhuma, o que temos a fazer é conseguir sair da prisão, o mais rapidamente possível. Quando sairmos, os presos comuns voltarão aos seus respectivos lugares''.

 


Os estudantes que não eram do estado de São Paulo foram deslocados para seus respectivos estados. Desde quando estávamos no Presídio Tiradentes, os protestos começaram. Assembléias, passeatas, protestos das mães e outros familiares, enfim um grande movimento foi sendo organizado para exigir a libertação dos estudantes presos .Esse movimento possibilitou que pudéssemos receber visitas, o que o fizemos vestidos com uniformes tradicionais de presos. Nós, que defendíamos uma posição mais ofensiva - sob influência da Ação Popular (AP) - dissemos aos que nos visitaram que queríamos que o movimento estudantil fosse para as ruas denunciar firmemente as prisões. Entre os visitantes estava Maria Clotilde Lemos, a Tide, minha namorada, estudante de Ciências Sociais na Universidade Católica de Campinas, com quem me casei quatro anos após e tive a felicidade de ter quatro filhos, todos participantes do movimento estudantil e engajados na luta pela transformação da sociedade, sendo que um deles, Gustavo, hoje deputado federal, foi Presidente da UNE no período 2003-2007.

 

Na assembléia realizada em Campinas, com uma presença massiva de estudantes da UCC e da Unicamp, Tide, seguindo a orientação recebida por ocasião da visita, foi uma das defensoras da proposta de que o movimento estudantil deveria ir às ruas, contra a proposta dos que seguiam a linha do PCB que considerava mais adequada uma posição mais cautelosa, mais defensiva em função da análise que fazia da correlação de forças naquele momento. A posição defendida pelos seguidores da AP foi vitoriosa e os estudantes foram para as ruas de Campinas.

 


Diante dos protestos em todo o Brasil, e da interferência de personalidades importantes, deu-se a libertação dos presos políticos. Antes, porém, passamos pelo Dops para novo depoimento. Estava sendo formulado o que diziam ser, naquela época, o maior processo da justiça brasileira, em número de envolvidos. Dirigimo-nos cada um para nossas respectivas cidades, onde fomos entusiasticamente recebidos pelos estudantes e por outros companheiros e companheiras de luta, naquele terrível momento da história do Brasil.

 

Nem todos os estudantes foram soltos, sendo que alguns ficaram presos até dezembro de 1968. As lideranças principais ficaram presas até 69, quando foram trocadas pela libertação do Embaixador dos EUA no Brasil, sequestrado.

 

Muitas pessoas poderiam ser lembradas pelo papel que desempenharam ao lado dos estudantes. Eu gostaria de lembrar aqui duas delas: Padre Haroldo Niero, já falecido, que em 1968 era professor da Universidade Católica de Campinas e Capelão do Exército e se dispôs ser minha testemunha de defesa no processo instalado por ter participado do Congresso; Dona Amélia Palermo, na época diretora do Colégio Progresso, que com muita força e altivez enfrentou os pais dos alunos do Colegial, que ameaçavam retirar seus filhos da Escola caso um professor preso e processado continuasse a lecionar. Meu emprego foi garantido por ela e os pais recuaram e permitiram que seus filhos continuassem estudando no Colégio Progresso.

 


O grande processo que foi se desenvolvendo na justiça militar, acabou sendo arquivado em 1979, com a conquista da Anistia.

Augusto César petta é professor, sociólogo, Coordenador-Técnico do Centro Nacional de Estudos Sindicais e do Trabalho - CES, membro da Comissão da Verdade da CONTEE, ex-Presidente da CONTEE e ex-Presidente do SINPRO Campinas.