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O reencontro dos participantes do Congresso de Ibiúna de 1968

Data: 05/11/2008

Autor: Augusto César Petta


Por iniciativa de Marília Andrade e do Grupo Colaborativo - integrantes do Projeto Manderlay.br que busca resgatar a luta dos estudantes e o legado de 68- houve um encontro dos´´ ïbiúnicos´´ no dia 11 de outubro passado. Gentilmente cedida por Marília - uma das participantes do Congresso da UNE que deveria ter sido realizado em Ibiuna - o encontro ocorreu em sua residência.

Ao chegar ao local, já tivemos uma grata surpresa: todas as nossas fotos, tiradas há exatamente 40 anos atrás ,e respectivas cópias das fichas do DOPS estavam expostas na entrada da residência. Todos os familiares presentes chamaram a atenção para a semelhança física dos filhos em relação às nossas fotos de quatro décadas atrás.

Fomos nos cumprimentando, conforme os atuais cinquentões e sessentões iam chegando. Alguns lembrávamos de suas fisionomias até porque estabelecemos contatos em períodos posteriores ao Congresso, outros exigiam uma reapresentação até porque os contatos, mesmo na época do Congresso, foram muito escassos. Entre os presentes estavam o Ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, o Deputado Federal José Genoino e o ex-Ministro José Dirceu.

Com uma mesa farta e bem servida, trocávamos nossas impressões sobre o movimento estudantil, sobre a conjuntura atual, inclusive sobre os resultados das eleições municipais no primeiro turno e as perspectivas para o segundo turno.

Entre os amigos que lá reencontrei, estava o Professor da PUC - São Paulo Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida, com quem tive a oportunidade de participar da luta dos professores no final da década de 70, em Campinas, que culminou com a nossa vitória na eleição da diretoria do Sindicato dos Professores de Campinas e região, em julho de 1981.

Numa das salas da residência, alguns dos presentes assistiam vídeos, inclusive referentes à história da UNE. Em outros locais da residência, fotos do Congresso e do movimento estudantil dos anos 60 estavam expostas. O ambiente era muito propício para fazer voltar às nossas lembranças aquele período tão importante da nossa história, no qual os estudantes tiveram um papel relevante na luta contra a ditadura militar, implantada em nosso país, em 1964.

Após esses primeiros contatos, o grupo que organizou o evento comandado pela anfitriã, nos convidou para uma conversa informal. Inicialmente, vários dos participantes contaram fatos interessantes e pitorescos que aconteceram no "antes, durante e depois´´ do Congresso: ´´vocês sabem onde surgiu o lema "a UNE somos nós, a UNE é nossa voz"? ´´Foi no Congresso de Ibiúna´´; ´´vocês se lembram que nós realizamos o Congresso, discutindo as teses principais (menos a eleição da diretoria) no Presídio Tiradentes´´? ´´vocês se lembram das dependências extremamente precárias do local do Congresso, além de uma chuva torrencial que muito nos incomodava´´? ´´E as dificuldades que tivemos para chegar ao local, correndo o sério risco de sermos presos?´´

Durante esse diálogo, um jovem que foi um dos organizadores do evento, perguntou qual era a pauta do Congresso. Nas respostas a essa questão, de repente nos vimos envolvidos nas polêmicas do movimento estudantil de 40 anos atrás. Enquanto o pessoal da AP enfatizava as lutas mais gerais contra a ditadura, propondo que os estudantes saíssem constantemente às ruas para denunciar os crimes da ditadura, o pessoal do PCB enfatizava as lutas dentro das Universidades a partir dos problemas objetivos que os estudantes enfrentavam sob a influência do regime militar. A proposta da AP estava vinculada à idéia de que o fundamental era o movimento de massas inserido numa perspectiva de guerra popular prolongada, nos moldes da Revolução Chinesa. Do PCB, que tinha uma visão mais pacifista considerada por muitos como reformista, surgiram dissidências, que consideravam que só um movimento armado, mais centrado com uma vanguarda atuante e bem preparada, teria condições de enfrentar o terrorismo imposto pela ditadura. A própria discussão da diretoria da UNE sobre o local onde seria realizado o Congresso já refletia fundamentalmente as duas posições. Os estudantes que eram filidaos ou simpatizantes da AP defendiam que o Congresso deveria ser de massa, realizado numa grande Universidade, onde além dos delegados com direito a voto, deveriam estar presentes muitos outros estudantes, enquanto que a dissidência do PCB propôs que fosse feito num local fechado (no caso um sítio em Ibiúna) onde deveriam estar presentes apenas os delegados eleitos para o Congresso. Esta foi a proposta vencedora, na diretoria da UNE, por uma diferença muito pequena de votos.

Fomos relembrando as nossas perspectivas estratégicas e táticas, falamos sobre a importância do movimento estudantil na época, aliás a única força que conseguiu manter a chama da liberdade, da luta pela democracia. Os operários e camponeses estavam amordaçados pelo regime militar. Coube ao movimento estudantil esse papel fundamental da denúncia sobre os crimes que a ditadura cometia contra os interesses do povo brasileiro.

Espero que tenhamos outras oportunidades para nos encontrarmos. Saudamos a iniciativa e esperamos que os registros dos nossos depoimentos permitam que esta história possa ser contada, até para que os jovens atuais possam conhecê-la e dar continuidade a essa luta, visando a construção de uma sociedade justa e democrática.

Augusto César Petta, é diretor do Sindicato dos Professores de Campinas e Região, do Centro de Estudos Sindicais e membro da Comissão Sindical Nacional do PCdoB.