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Você, colaborador, está disponibilizado para o mercado!

Data: 22/09/2009

Autor: Augusto Petta


Durante o tempo em que exerci a presidência do Sindicato dos Professores de Campinas e Região, atendi vários professores e professoras que trabalharam muitos anos em escolas privadas e que, ao serem demitidos, demonstravam - inclusive com lágrimas nos olhos - a sua indignação e decepção. Muitos deles receberam a carta de aviso-prévio, nas suas respectivas residências, sem ao menos terem tido a oportunidade de tomar conhecimento sobre as causas da demissão. Doaram longo período da sua vida, formando as novas gerações e acreditando que teriam uma recompensa maior, por parte das mantenedoras das escolas, pela dedicação ao trabalho.

Talvez tenha faltado a muitos deles uma maior compreensão a respeito do funcionamento frio e insensível do sistema capitalista. Não é a felicidade das pessoas que norteia o capitalismo, mas pelo contrário, o que interessa aos empresários é o lucro a ser obtido sobre o investimento realizado,  com base na exploração dos trabalhadores e trabalhadoras.

O que ocorria nas escolas era um reflexo do que acontecia nas indústrias, no comércio, na agricultura, em vários locais de trabalho. As condições de trabalho eram inadequadas e os salários baixos. O tratamento por parte dos patrões era de repressão a qualquer tentativa de manifestação de protesto contra as injustiças praticadas. Muitas greves ocorreram nos anos 80, mesmo com a repressão imposta pelas direções das empresas.

Sobretudo a partir dos anos 90, com a implantação do neoliberalismo, da reestruturação produtiva e das novas técnicas gerenciais, o desemprego aumentou. Preocupados com a ascensão das lutas políticas e sindicais dos anos 80 e buscando aumentar a taxa de lucro, os empresários, ao mesmo tempo que, desempregavam milhares de trabalhadores e trabalhadoras e aumentavam a taxa de exploração da mais valia,  a lteravam a forma de relacionamento com os trabalhadores e trabalhadoras. O toyotismo vai, aos poucos, se implantando, com novas técnicas de gerenciamento.

O patrão passa a ser chamado de empregador e o trabalhador de parceiro e colaborador. Procura-se camuflar a luta de classes. Empregadores e colaboradores seriam parceiros  para que a empresa pudesse crescer. E, no discurso patronal, na medida que a empresa crescesse, tanto os empregadores quanto os colaboradores seriam beneficiados. O administrador de empresas Almir Tabajara , num artigo intitulado "Retendo os talentos da empresa" explicita as características que devem ter os trabalhadores atuais, na perspectiva dos patrões:" A complexidade dos negócios de hoje e as formas de competição exigem que os nossos colaboradores estejam envolvidos no negócio, usando plenamente toda a bagagem de conhecimentos agregados em toda a sua vida, postos à  disposição da nossa empresa. Não precisamos deles apenas com o mínimo requerido pelo cargo que executam( apenas a presença física, pontualidade e frequência), precisamos deles em situações inteiramente novas todos os dias com a destreza, habilidades, talentos e, principalmente envolvidos integralmente no negócio de nossa empresa. A questão fundamental agora passa a ser outra, muito mais complexa. Como atrair e reter o trabalhador do conhecimento para dentro de nossa empresa, fazer dele um parceiro e aproveitar melhor desse colaborador para alavancar a empresa?".

É dessa forma que os patrões mais atualizados  se comportam. Atingem fortemente a subjetividade do trabalhador e da trabalhadora. Trata-se de uma verdadeira captura da subjetividade. Já se fala que não basta que o trabalhador e a trabalhadora vistam a camisa da empresa, mas sim que eles carreguem a empresa na sua alma. Camisa é externa ao corpo e pode ser retirada, ao passo que a alma tem um significado espiritual mais profundo e intrínseco ao ser humano. Esse colaborador tão requisitado a quem, no discurso patronal, tanto se enaltece como um grande parceiro, recebe, muitas vezes, um salário baixo e tem uma jornada extenuante, realizando inúmeras tarefas, utilizando celular e computador fora do horário normal de trabalho.
E, a exemplo do que ocorria com os trabalhadores e trabalhadoras das décadas passadas, são demitidos, passando por enormes dificuldades par sobreviver. Mas, são que agora, o processo de demissão é mais sofisticado. Um representante da empresa chama o infeliz que será¡ demitido e diz mais ou menos o seguinte: “Gostaríamos de agradecer o eficiente trabalho que  desenvolveu na nossa empresa. Atualmente não necessitamos mais da sua colaboração. Você foi um grande parceiro.

Nesse momento, você será disponibilizado para o mercado. O mercado irá contar com a sua colaboração em outra empresa e, com a capacidade que adquiriu na nossa empresa, será bem sucedido!".

Triste realidade que no s impõe esse sistema injusto . Necessário se faz organizar e mobilizar os trabalhadores e trabalhadoras para mantermos acesa a luta pela conquista de uma sociedade justa e democrática!

Augusto César Petta é professor e Coordenador-Técnico do Centro de Estudos Sindicais - CES