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EDUCAÇÃO TORTURADA

Data: 16/02/2011

Autor: Luiz Alberto Stefani Galvăo


Encontrei o professor Hernandes. Notei que estava triste, e após conversarmos, me disse que encontrara a mulher que havia amado há varias décadas atrás, agora mãe de família e casada. Enquanto me contava, deixou rolar uma lágrima, pois no olhar dela percebeu a injustiça a que foram submetidos. Dias depois, preocupado, procurei-o na sua casa, e durante a nossa conversa, contou-me que o seu relacionamento não chegara a um final feliz porque o pai dela não queria que se envolvesse com um ”terrorista”. Estávamos acomodados na sua sala de estudo, onde os livros tomavam conta de tudo, ao fundo ouvíamos a música “Veinte Anos”, interpretada por Omara Portuondo, que emprestava a melodia a tristeza de um amor perdido.  Assim os anos se passaram e Hernandes resolveu amar a cátedra, a educação, e pelo que sei nunca se casou. 

Conheci o professor na minha juventude e Hernandes, embora fosse jovem frequentara a ordem beneditina o que lhe dera uma gama de conhecimento invejável no campo da filosofia, teologia, antropologia, sociologia e outras mais disciplinas. Nossas conversas eram sempre cercadas de muito sigilo, pois nos anos de ferro de 1973 idéias eram confundidas com pensamentos contra o regime ditatorial. Certa vez quando estávamos jogando futebol no “campinho dos padres”, na Rua Fernão Salles, pelos lados da Vila Hortência, do nada surgiram os policiais do DOPs e perguntaram por Alcides, um dos nossos amigos. Sem titubear, Hernandes respondeu: “-Quem sabe esteja sendo torturado?!” Isso bastou para que levasse uma bofetada no rosto que fez o sangue escorrer pela boca, caindo no pó seco do solo. Dias depois, soubemos que encontraram Alcides morto por afogamento no lago de Araçoiaba da Serra.

O tempo foi passando e aquela figura que havia enfrentado o regime de exceção com a força das suas idéias passou a lecionar em escolas particulares do mais alto gabarito, inclusive no ensino superior. Suas idéias cativantes iam contra os interesses das escolas, que só visavam ao lucro, usando a educação como meio.  Detalhava que hoje vigora a ditadura educacional, pois há instituições educacionais que consignam no seu projeto pedagógico o compromisso do curso em 5000 horas/aula, porém, não se encontra o professor em sala, pois de todas essas aulas prometidas muitas delas são destinadas ao ensino a distancia, atividades complementares descomprometidas com a educação etc.

Em relação aos professores, viviam descumprindo o dissídio coletivo, o assédio moral era elevado, havia unilateral redução da carga horária. Hernandes bradava: “-Querem que eu vista a camisa, mas me deixam sem as calças. Educação não é mercadoria.”  Concordava com o sábio professor e amigo, vez que o sistema educacional não tem normas regulamentadoras e o mais interessante é que as escolas privadas com base na falácia das públicas, ao invés de tratarem os estudantes como alunos, os chamam de “clientes”, o professor é “colaborador”. Tudo a evidência da destruição dos dogmas da educação em prol do lucro exacerbado, sendo que o Estado, por sua vez cruza os braços na mesma proporção do “L’ Etát Gendarme”.

O artigo 205 da Constituição Federal determina que a “ educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.”, mas o que se vê são as grandes escolas privadas sufocando as menores, adquirindo-as por preço vil. São cartéis  conhecidos no mercado, pois suas características principais se evidenciam pela constante redução de custos (entenda-se funcionários e professores), promovem a rotatividade e alteram a grade curricular dentro dos seus interesses. Possuem influência dentro do Conselho Nacional da Educação, pois lá estão os seus representantes que assumem o papel de vassalos do lucro, quando deveriam estar ao lado do povo. A reflexão amarga que tenho é de que nos idos de 1970 havia uma ditadura assumida pelos militares, e atualmente, no plano educacional, a ditadura é disfarçada pelos proprietários comprometidos com as floralias da educação, e não com a Educação de um país. O que ambas as ditaduras têm em comum é que jamais estiveram comprometidas com a democracia, o povo, e a liberdade.

Alcides perdeu a vida, Hernandes o seu amor, os professores perdem a sua dignidade e a Educação a sua essência.

Luiz Alberto Stefani Galvăo é diretor do SINPRO-Sorocaba