Busca:


Artigo Conteúdo

Subjetividade precarizada do professor

Data: 07/01/2013

Autor: Augusto Petta


Ao receber da própria autora a tese de doutorado  ”Os impactos das condições de trabalho sobre a subjetividade do professor do ensino superior privado de Campinas” escrita por Liliana Aparecida de Lima, tomei conhecimento , com surpresa e alegria, de que esse importante trabalho intelectual foi a mim dedicado. Liliana é psicóloga, professora da PUCC, diretora do SINPRO Campinas e região e da APROPUCC. É assídua participante dos cursos nacionais do CES e coordena os seminários de Planejamentos Estratégicos Situacionais em entidades sindicais.
 
A defesa da tese ocorreu no dia 28 de novembro de 2012, na Faculdade de Educação da UNICAMP e teve como membros da Comissão Julgadora os Professores Doutores Elisabete M.A.Pereira (orientadora), Reginaldo A.Meloni, Luis H.Aguilar, Márcia H. Bernardo e J. Roberto M. Heloani.

Diferentemente de outras, que se referem a temas desvinculados da realidade social, esta tese ultrapassa os muros da Universidade. Contextualiza a expansão do ensino superior privado no Brasil influenciada fortemente pela desregulamentação,financeirização e desnacionalização. Nesse contexto - em que o neoliberalismo deixou marcas profundas, com o ensino transformando-se em mercadoria - que a autora pesquisa as condições de trabalho dos professores do ensino superior privado e como estas condições impactam as subjetividades dos mesmos, tornando-as precarizadas. Os dados revelam números alarmantes: 88% dos professores estão estressados; 76% revelam que o trabalho os retira do lazer,do convívio com a família e com os amigos; 52% estão adoecidos; 52% têm medo de perder o emprego. Mesmo assim, 68% dos professores dizem que não mudariam de profissão.

A autora ressalta o ciclo virtuoso do crescimento da economia brasileira ,  a partir de 2004, porém ressalta a necessidade de haver reformas estruturais, inclusive da educação,  envolvendo  a regulamentação do educação privada.  

Evidentemente, as condições precárias de trabalho não atingem só os professores, mas sim o conjunto dos trabalhadores . Nesse sentido, o estudo contribui para a compreensão do novo perfil da classe trabalhadora, compreensão esta que é fundamental para o desenvolvimento das lutas desenvolvidas pelas entidades sindicais. A autora não se restringe a verificar como a mente e os corações dos professores são profundamente afetados, mas também sugere saídas . Afirma que “...para o sofrimento individual , as saídas devem ser coletivas .”E que a mobilização dos professores passa pela luta em defesa da livre organização em seus locais de trabalho.

A tese ressalta que os dramas vivenciados pelos professores são construídos historicamente e vão além da relação com os alunos e, que poderão ser superados na medida que a educação seja efetivamente transformada, no contexto da efetivação de um projeto nacional de desenvolvimento com distribuição de renda e valorização do trabalho.

Nas atividades de formação que coordeno, quase sempre surge a pergunta: o que fazer para que os trabalhadores e as trabalhadoras se mobilizem em torno dos objetivos das entidades sindicais? Evidentemente, a resposta não é nada fácil, sobretudo numa conjuntura complexa como vivemos hoje. A autora , além de enfatizar a importância da luta por um projeto nacional de desenvolvimento com distribuição de renda e valorização do trabalho, e a necessidade das  organizações por locais de trabalho, refere-se também  à criação de espaços para que as manifestações subjetivas se manifestem, que as  identidades sejam reafirmadas , e que as saídas coletivas sejam efetivadas. Em outros palavras, espaços para que os trabalhadores possam compartilhar o que vivenciam no trabalho, com alegrias , tristezas, doenças, medos, assédios, conquistas, enfim que possam trocar idéias sobre suas vidas.

Agradeço a Liliana pela dedicatória a mim dirigida , desejo que ela continue sua vitoriosa trajetória intelectual e política e que siga a sugestão da banca examinadora de publicar um livro referente ao tema da tese.
 
Augusto Petta
Coordenador – Técnico do Centro Nacional de Estudos Sindicais e do Trabalho - CES