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Notícias da Educação

Os Saltimbancos de Chico Buarque - Um marco a ser rememorado no Dia Nacional do Livro Infantil


Data: 18/04/2018

Fonte: Joel Della Pasqua


18 de abril. Dia Nacional do Livro Infantil. A data de hoje relembra aquele que, sem medo de cometer exagero, pode-se dizer que foi o início de tudo. Monteiro Lobato. Claro, havia outros antes, mas ninguém com seu gênio original. Hoje é seu aniversário e, com muita justiça, escolheu-se esse dia para homenagear a literatura infantil. O célebre escritor eternizou um pequeno sítio, o Sítio do Pica-pau Amarelo, como o espaço privilegiado da imaginação e do sonho para muitas crianças do século XX aos dias atuais. Em uma magnífica fusão de lendas brasileiras e elementos da cultura ocidental e oriental, fez disso resultar um inusitado encontro entre Sacis e Minotauros. Além disso, Monteiro Lobato foi inovador quando trouxe para a criança de seu tempo, uma época de guerras mundiais, o esclarecimento, contado de um jeito adequado ao pequeno mundo infantil, sobre temas, até então tidos como desnecessários aos infantes, como guerra, amor, ódio, paz, soberania. Ninguém hoje ousaria dizer que esse pioneirismo não foi notável. Forja-se na infância o futuro do adulto. Como diria Machado de Assis, em seu “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “o menino é o pai do homem”. E a literatura infantil e seu diálogo com o mundo da criança é, portanto, decisivo para a preparação dos pequenos rumo ao futuro.

Depois de Monteiro Lobato, o caminho frutífero abriu-se à literatura infantil brasileira. Grandes nomes, como Ana Maria Machado, Maria Clara Machado, Lygia Bojunga Nunes, Marina Colasanti, dentre outros, que fizeram e fazem da literatura infantil brasileira uma das maiores e mais qualificadas do mundo. Neste artigo, e neste grande dia, vamos homenagear uma obra em especial, “Os Saltimbancos”, de Chico Buarque, do ano de 1977. Uma genial tradução e adaptação feita da obra italiana “I Musicanti” de Sérgio Bardotti e Luis Henriquez Bacalov, que, por sua vez, era uma adaptação do conto-de-fada “Os Músicos de Bremen”. O musical infantil, na adaptação de Chico Buarque, recria um mundo dentro de um país, que, naquela década de 70, estava vivenciando uma ditadura civil-militar.

Quatro animais que, fugindo de seus donos opressores, encontram-se para dividirem suas aflições e juntarem “um bico, com dez unhas, quatro patas e trinta dentes e ver o valente dos valentes que ainda vai te respeitar”. Uma galinha, uma gata, um jumento e um cachorro, que nesta versão, em uma inusitada metáfora, representa todo um povo oprimido. A galinha, já velha e cansada, é expulsa da granja em que trabalhou toda uma vida e sem nada e sem direitos, apenas como “um bico a mais, que não faz mais feliz, a grande gaiola do meu país”. A gata, magnífica cantora, aclamada pelos companheiros saltimbancos como a verdadeira artista do grupo, e autêntica em reconhecer que “nós, gatos, já nascemos pobres, porém já nascemos livres”, mas em um mundo não-livre, ficou sem lugar para cantar e ser feliz. O jumento, trabalhador incansável, desde cedo no eito, e por isso não pestanejava em dizer que “jumento não é, jumento não é o grande malandro da praça, trabalha e trabalha de graça, nem nome não tem, não agrada a ninguém, é manso e não faz pirraça, mas quando a carcaça ameaça a rachar, que coices, que coices, que coices que dá”. É o trabalhador com limite para sua passividade. E o cachorro, pobre coitado servil, com sempre “fidelidade à minha farda, sempre na guarda do seu portão, fidelidade à minha fome, sempre mordomo e cada vez mais cão”. As baixas patentes que nem sempre são respaldadas, ainda que em regimes de exceção. Quanto animaizinhos, oprimidos, revoltados, dispostos a, enfim, serem livres e serem felizes.

Na inesquecível saga desses representantes de todos nós, vemo-los lutarem por um lugar neste mundo, neste país. Em busca de uma cidade ideal, que, em suas utópicas visões, “deveria ter alamedas verdes, a cidade dos meus amores, e quem dera os moradores, e o prefeito e os varredores, e os pintores e os vendedores, e as senhoras e os senhores, e os guardas e os inspetores, fossem somente crianças”. Mas acabam chegando a uma pousada, a Pousada do Bom Barão, e, intuitivamente, sabem que o nome não traz bons augúrios, e concluem que com esse nome “não sei não, já estou por aqui de tanto barão”. Eles encontram, juntos, ceando, seus antigos donos, de quem haviam fugido e, em uma destemida e frenética luta, tomam a pousada e colocam seus opressores para correr. Vitória dos oprimidos. E aprendem a grande lição do dia e de suas vidas, a de que “um bicho é só um bicho, mas todos juntos, somos fortes” e, assim, “junte um bico, com dez unhas, quatro patas, trinta dentes, e o valente dos valentes ainda vai te respeitar, todos juntos somos fortes, somos flecha e somos arco, todos nós no mesmo barco e não há nada para temer”. Uma lição também para nossas vidas.

“E no mundo dizem que são tantos saltimbancos como somos nós”

O SINPRO-SOROCABA saúda a todos os escritores de literatura infantil no Brasil, e homenageia a todos os infantes leitores. Como saltimbancos, seguimos todos juntos e fortes na construção de um mundo e de um país cada vez mais livre e cada vez mais justo. E temos muito orgulho da literatura infantil brasileira, que sempre contribuiu e ainda contribui com a grandeza cultural deste país.