Busca:


Notícias da Educação

Meu Canto de Vida no Dia do Índio


Data: 19/04/2018

Fonte: Joel Della Pasqua


             “Meu canto de morte, guerreiros ouvi”. Esse conhecido trecho do famoso poema “I-Juca Pirama”, do poeta brasileiro Gonçalves Dias, inicia a saga de um indígena guerreiro em que a morte confirmará sua bravura. Com a chegada dos europeus, chega também a morte dentro de uma lógica cultural diferente dessa, como algo pautado em uma visão etnocêntrica expansionista, que determinará o extermínio desses povos indígenas.

            Após mais de quinhentos anos desta história de colonização, os povos indígenas que restaram, no Brasil, colocam à sociedade brasileira e ao governo que a representa, na atualidade, diversas questões, que vão desde o direito à vida, à liberdade e à preservação de sua cultura, até a crucial questão da posse da terra.

            O artigo 7º da “Declaração das Nações Unidas sobre os direitos dos Povos Indígenas” afirma seus direitos em relação à vida, à liberdade, à segurança, à integridade física e mental, além de lhes reconhecer a pluralidade étnica e o direito de se verem protegidos contra genocídios ou qualquer outro ato de violência.

            No entanto, ainda assistimos a casos e descasos em relação aos povos indígenas no Brasil. Casos de assassinatos de líderes e representantes de comunidades indígenas e o mais notório descaso das políticas públicas em relação a questão indígena no Brasil.

           As políticas indigenistas, no Brasil, devem, obrigatoriamente, seguirem duas vias: a que se refere aos indígenas aldeados e a que se refere aos indígenas urbanos. Os primeiros lançam sua sobrevivência alicerçados em uma relação direta com a natureza e com o sustento que dela podem obter e se preservam, culturalmente, a partir da manutenção de seus conhecimentos tradicionais. Os segundos, como ligados à realidade das cidades brasileiras, carecem de inserção no modus operandi dessas, ou seja, por meio das vias de garantias de empregabilidade no mercado de trabalho e de inserção no modelo vigente educacional das escolas brasileiras. Esse último, parece um desafio cada vez menos valorizado pelas políticas governamentais e os indígenas urbanos acabam cada vez mais desvalorizados e discriminados pela sociedade. Uma sociedade ainda mantenedora de uma visão evolucionista da história, que coloca os povos indígenas como atrasados em relação ao progresso material capitalista. Erro brutal, que precisa ser eliminado da visão de mundo das gerações futuras. Essas deverão entender, definitivamente, que ninguém será civilizado, enquanto não aceitar outras civilizações e outras culturas. A alteridade sempre será a base para a construção de uma verdadeira democracia racial.

            De acordo com o Censo do IBGE / 2010, os povos indígenas somam 896.917 pessoas. Na época da chegada dos europeus, somavam de 2 a 4 milhões de pessoas. Segundo a ONG “Survival International”, a maior tribo é a dos Guarani, com uma população de 51.000 pessoas, mas que enfrentaram e ainda enfrentam grandes problemas para a manutenção da posse de suas terras, que, constantemente, foram e são alvos do expansionismo agropecuário. Os Guaranis expulsos de suas terras, hoje, vivem em reservas superlotadas ou em acampamentos de lona em estradas. Segundo a mesma ONG, a maior tribo amazônica, no Brasil, são os Tikuna, que somam 40.000 pessoas e a menor é formada por um único homem, que vive, isolado, em um pedaço de floresta e se recusa a qualquer contato.

            Do ponto de vista cultural, é indiscutível a contribuição da cultura indígena para a sociedade brasileira e ao patrimônio da cultura mundial. Sua influência está presente na língua portuguesa, além da pluralidade linguística falada pelos diversos povos indígenas no Brasil, também nas artes plásticas e musicais, na culinária, nos métodos medicinais, no próprio modelo de educação indígena, que, de modo libertário, conduz os mais jovens ao aprendizado de todo um saber ancestral. Algo que parece cada vez mais desaprendido em nossas escolas “civilizadas”, que é o respeito à ancestralidade e ao mais velho do grupo como detentor de experiência e sabedoria.

            Para finalizar, saudemos a luta de resistência indígena no Brasil, que, desde a década de 70 do século passado, vem se organizando, representativamente, em um crescente movimento articulatório de diálogo com a sociedade e com o governo, em uma luta de guerreiros em nome de seus direitos e de seus reconhecimentos sociais e culturais. Desde a chegada dos europeus, os povos indígenas mostraram uma força de resistência contra o desmanche de seus patrimônios culturais e o roubo de suas terras e meios de sobrevivência. Hoje, em menor número, depois de terem sido vitimados, ao longo, principalmente, dos séculos XVI e XVII, em um dos maiores genocídios da história da humanidade, continuam fortes e cada vez mais organizados e dispostos a terem voz e serem respeitados dentro da sociedade.

            “Meu canto de vida, guerreiros ouvi”. O SINPRO-SOROCABA deseja que essa expressão possa, um dia, ser o início da atual saga dos povos indígenas no Brasil.