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INFÂNCIA SEM LUZ: Uma reflexão no Dia das Crianças


Data: 12/10/2018

Fonte: Prof. Joel Della Pasqua


INFÂNCIA SEM LUZ

Uma reflexão no Dia das Crianças

 

Pela madrugada os capitães da Areia vieram. O Sem-Pernas botou o motor para trabalhar. E eles esqueceram que não eram iguais às demais crianças, esqueceram que não tinham lar, nem pai, nem mãe, que viviam de furto como homens, que eram temidos na cidade como ladrões. Esqueceram a palavra da velha de lorgnon. Esqueceram tudo e foram iguais a todas as crianças, cavalgando os ginetes do carrossel, girando com as luzes. As estrelas brilhavam, brilhava a lua cheia. Mas, mais que tudo, brilhavam na noite da Bahia as luzes azuis, verdes, amarelas, roxas, vermelhas do grande carrossel japonês.

 

AMADO, Jorge. Capitães da Areia. Capítulo “As luzes do Carrossel”.

 

                Na noite do carrossel japonês, crianças a quem foi negada a infância puderam sentir-se crianças. Essa é uma passagem da famosa obra “Capitães da Areia” de Jorge Amado e escrita no ano de 1937. Pode-se negar a realidade da infância a uma criança, mas nunca será possível negar a sua essência. Ainda assim, um Estado com premissas históricas de violações a direitos humanos insiste em negar tal essencialidade a um infante carente de proteção e de formas dignas para sua sobrevivência. Jorge Amado já abordava tal questão na década de 30 do século passado. Ainda hoje o quadro se mostra inalterado.

                Pelas ruas do país das (des)maravilhas, há crianças abandonadas e nenhuma Alice a perseguir um coelho apressado que se infiltra em uma toca-portal de descobertas surrealistas. As descobertas a serem feitas não são surreais. Não são porque não há sonho a permear a realidade encontrada. A dureza cruenta do real está espalhada em cada canto do Brasil. Crianças abandonadas e sem lar compõe o deprimente cenário de praticamente todas as cidades brasileiras. Abandono e infância são nomes desencontrados. Mas que deploravelmente andam lado a lado em uma sociedade injusta e devastadora.

                Assim se fazem os dias e as noites de não apenas Capitães da Areia, mas também de pequenos cidadãos sem cidadania em urbes amontoadas de pessoas, serviços, carros, injustiças e muita demagogia. Muita insensibilidade também. As pessoas andam pelas ruas e olham para crianças abandonadas, mas não as veem. Olhar e ver não são sinônimos. Não neste caso. Talvez apenas verbos aglutinados em um mesmo campo semântico. Mas não dizem respeito a uma mesma ação. Olhar está ligado à percepção do campo visual. Eu olho. Ver liga-se a algo mais, a perceber subjetivamente, a notar a existência do outro em um aspecto de alteridade. Desse modo, eu vejo e sinto. Sinto o outro. Sinto o sofrimento e a injustiça sofridos pelo outro. Quanto de empatia falta em quem olha crianças abandonadas, mas não as veem. Olhar produz afirmação. Há crianças abandonadas. Ver produz questionamentos. Por que estão abandonadas? E em seguida, indignação. Isso não deveria ser assim! Quem olha, mas não vê, não muda o mundo. Não age sobre esta ou aquela realidade. Apenas olha-se para ela. Cinicamente se olha. E segue seu caminho e logo se esquece do que olhou.

                Os Capitães da Areia eram pequenos Robin Hood. Roubavam dos ricos e mantinham o produto do furto para distribuir entre si. Entre os que eram pobres. Nada justifica o roubar. Isso alguém poderia afirmar com sua consciência moral tomada pela força da lógica e da razão. Mas a existência de crianças miseráveis e abandonadas também transcende os limites da lógica e da razão. E transcende os limites da moral. A moral é a ética. O moral é o ânimo. Crianças abandonadas andam com o moral baixo, porque não há ânimo diante da vida. A maioria das pessoas andam com a moral baixa, porque não possuem força ética para não aceitar que crianças vivam abandonadas pelas ruas. E disso decorre descalabros. Porque é sabido que, neste país das (des)maravilhas, o que não se consegue resolver socialmente, vira assunto da polícia. E estamos em tempos sombrios e sem sonhos, em que se diz agressivamente saídas imorais: limpem a cidade e deem um fim nessas crianças ladras, assim como era dito na obra de Jorge Amado escrita em 1937. Nada novo. A chacina da Candelária, em 1993, foi apenas uma repetição do eterno ontem. Mas quantas Candelárias ainda iremos vivenciar? Crianças precisam morrer para que passamos viver?

O poeta alemão Bertolt Brecht afirmava que nos tempos sombrios nada restará a cantar senão os próprios tempos sombrios. Mas precisamos de luz. Crianças pobres e abandonadas precisam da luz. Mas cada vez mais negam isso a elas, até mesmo aquela do final do túnel. Todos olham o túnel. Mas ninguém vê a luz. Então cantemos a escuridão. E tateando o mundo como cegos, acreditemos que não o somos. Mas nós somos. Porque olhamos, mas não vemos. A cegueira hipocritamente “bem-intencionada” fala de diminuição da maioridade penal. A explicitamente mal-intencionada fala de chacina e extermínio de crianças de rua. Mas se fossem capazes de ver e de sentir saberiam que tais “soluções” nada solucionam. Hipocrisia e violência de adultos somados a abandono e assassinatos de crianças nada solucionam. Nada. Apenas devastam ainda mais o túnel sem luz que todos percorrem.  

                No Dia das Crianças devemos olhar em direção ao futuro e ver o país que queremos ter e o povo que queremos ser. Perceber o futuro e sentir o país e seu povo. As crianças estarão lá, no futuro, como os adultos do amanhã. Todas elas. As não abandonadas e as abandonadas. A única certeza que se pode ter é que desigualdade e violência no presente não criam perspectivas satisfatórias para o futuro. É no hoje, na escuridão do agora, que devemos buscar a luz. Para nós e para nossas crianças. Buscarmos juntos as luzes do carrossel japonês, em que os Capitães da Areia se esqueceram, por um instante, que não eram iguais às outras crianças.

                O Sinpro-Sorocaba presta sua homenagem a todas as crianças do Brasil e deseja que o futuro possa trazer justiça, dignidade, paz e luz a todos, infantes e adultos.