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Notícias da Educação

DIA INTERNACIONAL DO DESARMAMENTO INFANTIL


Data: 15/04/2019

Fonte: prof. Joel Della Pasqua


            Hoje, 15 de abril, é considerado o Dia Internacional do Desarmamento Infantil. Aqui temos dois temas delicados. Infância e armamento. O que se entende por desarmamento infantil está ligado à ideia de brinquedos e brincadeiras infantis que instiguem a violência, além do contato real ou audiovisual de crianças com armas de fogo. A pergunta a ser feita é: armas de brinquedo, jogos de violência e suas respectivas brincadeiras são ideais na formação intelectiva e emocional de uma criança? Muitos poderiam dar-se como exemplos e alegarem que brincaram com armas de brinquedo, jogaram jogos de videogame de violência quando crianças e isso não lhes proporcionou, quando adultos, uma predileção pela violência e nem lhes foi uma porta de entrada para cometerem crimes.  

No entanto, o que está em jogo aqui não é simplesmente uma relação direta e óbvia entre o que se aprende na infância e o tipo de adulto que se tornará. Não desmerecendo, logicamente, a noção de que a infância é uma base de solidificação para a vida adulta. Válido lembrar do escritor Machado de Assis, que afirmava, em sua célebre “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, que o menino é o pai do homem.

            A relação entre brinquedos e brincadeiras infantis com o tipo de adulto que se tornará é um tanto mais complexa. Talvez brincar, quando criança, com armas de brinquedo não produza, diretamente, em todos os casos, um adulto violento ou criminoso. Mas certamente produzirá um adulto que olhará para armas, guerras, crimes e violências com algo completamente banalizado. A questão a ser considerada é até que ponto armas de brinquedo e jogos de videogame com conteúdo de violência produzem uma banalização do mal dentro da sociedade. Um adulto que brincou com armas de brinquedo na infância talvez não se torne violento ou um criminoso, mas certamente olhará para o mundo da violência e das armas como algo natural e banalizado. Nesse caso, o menino com arma de brinquedo é o pai do homem que banaliza a violência na sociedade.

            O filósofo Kant compreendeu que o mal não tem suas origens na natureza e nos instintos do ser humano, mas sim naquilo que o faz livre e racional. Se assim for, não há como negar que a racionalidade e a liberdade, ensinadas na infância, que estão incrustradas na ideia de uma brincadeira ou jogo, aparentemente inocentes, de imaginário violento é algo negativo na formação de um infante. A criança com uma arma de brinquedo torna-se uma mera engrenagem de um sistema que legitima a violência cotidiana. Ao tornar-se um adulto, pouco se interrogará sobre o sentido daquilo que ocorre ao seu redor em relação à produção de um mundo violento. E será essa perda de pensamento e reflexão que o fará ver a maldade de modo banalizado.

            A relação entre o mal e o deserto reflexivo foi visualizada com precisão pela filósofa Hanna Arendt, que destacou uma possível compreensão do funcionamento da violência na sociedade contemporânea, que diminuída em sua capacidade de reflexão e de julgamento, acaba condenada à erosão de todo um conjunto de valores éticos. O mal, portanto, acaba sendo banalizado por um coletivo de seres humanos incapacitados diante de algo que lhes parece externo e imutável, do qual puderam, com a cumplicidade dos adultos, mergulharem imaginariamente desde a infância. O que restará é a incapacidade de assumir responsabilidades diante de um mundo violento, e o pior, ainda olhar com displicência para esse mundo e aceitar que é impossível mudar o rumo das coisas.

            Transformar o mundo certamente não é uma tarefa das mais fáceis, mas sem dúvidas das mais necessárias. E isso deve começar na infância de uma pessoa. Se queremos um mundo sem violência e sem banalização do mal, devemos começar a ensinar nossos infantes a não imaginarem o mal e a violência nem mesmo em forma de brincadeiras. Se o menino é o pai do homem, então que meninos e meninas não sejam conduzidos em seus imaginários infantis a verem como legítima a violência cotidiana, pois desse modo haverá homens e mulheres dispostos a dizerem não àquilo que não pode ser banalizado e sim transformado de modo humanitário.

            No dia de hoje, o Sinpro-Sorocaba solidariza-se com o ideal do desarmamento infantil, pois acredita que a violência não deve ser banalizada pelos adultos e menos ainda pelas crianças, sendo que essas devem ser preparadas e educadas para a paz e para a máxima solidariedade humana.