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Notícias da Educação

O PROFESSOR APOSENTADO E O VÍNCULO COM A VIDA


Data: 15/05/2019

Fonte: Prof. Joel Della Pasqua


           15 de maio. Dia do Professor Aposentado. Hoje se homenageiam docentes que, após décadas de magistério, conquistaram o direito social da aposentadoria. Os desafios enfrentados como professores foram inúmeros. Em seus percursos através do tempo, vivenciaram diversas realidades em sala de aula, enfrentaram desafios de novas gerações que emergiram trazendo consigo novas realidades e, tantas vezes, nítidas inversões de valores. O professor aposentado é aquele que assistiu aos avanços e retrocessos educacionais em um país ainda muito carente quanto à valorização da educação e de seus profissionais.

                Cotidianamente, o professor deve levar um elenco de saberes para a sala de aula. O saber de sua formação profissional (o saber da didática do ensinar), o saber disciplinar (o saber do conteúdo da disciplina que leciona), o saber curricular (o saber diante do planejamento de um currículo comum e obrigatório), o saber experiencial (o saber que brota de sua experiência como ator social) e o saber emocional (o saber diante das relações afetivas inerentes às suas interações em sala de aula). A complexidade, portanto, diante das exigências de tal profissão, é algo inegável.

                O professor, hoje aposentado, lidou com essa multiplicidade de saberes e lidou com o correr do tempo. A sala de aula impõe uma dinâmica impossível de ser estacionária. Ao longo das décadas, novos conhecimentos gestados, novas visões dos velhos conhecimentos, políticas educacionais criadas e recriadas a cada ciclo governamental. Em meio a isso, uma sociedade que inevitavelmente se reconfigura a cada geração. E o professor é aquele cuja profissão o impede de ser mero espectador das transmutações do tempo, pois de seu trabalho depende o próprio tempo. Diante de si como educador, a responsabilidade crítica e ética diante das mudanças sempre operadas para poder se conectar com seus alunos como um elo entre a velha e a nova geração.

                Ao final de uma carreira, o professor, diante da aposentadoria, pode olhar para seus anos de trabalho a partir de diversas perspectivas. Pode entendê-los como a jornada de um herói ou a jornada de um lutador que nem sempre venceu a batalha. Ou mesmo, das duas formas. Mas quiçá pudesse entender que venceu a guerra. Talvez essa última perspectiva não possa ser possível, não pela ausência de força e coragem do professor, mas porque a educação será sempre uma guerra ininterrupta. Uma batalha seguida de outra. E o professor aposentado seria o guerreiro que deixou o campo de batalha, mas que nunca poderá abandonar a guerra. 

                Ainda assim, aposentar-se é uma nova batalha que se coloca diante não apenas dos professores, mas de todos os trabalhadores. É um ritual de passagem que traz grandes desafios. É o abandonar do grupo de trabalho ao qual, por décadas, pertenceu e sem ainda ter ideia dos desafios do outro grupo ao qual irá, certamente, pertencer. No Brasil, aposentar-se é estar diante de um paradoxo. De um lado a certeza do cumprimento de seu dever de trabalhador e de ver concretizado seu direito social. De outro, uma enorme insegurança diante de uma sociedade que advoga em prol do direito de aposentar-se, mas que olha de modo discriminatório para a figura do aposentado. Falta, no contexto brasileiro, agregar à aposentadoria uma ideia de futuro e de novas fases da vida que virão a partir de então. No entanto, o que a sociedade acaba por agregar é uma ideia de inatividade, de improdutividade e, tantas vezes, de solidão. E isso é um erro brutal. E um grave desrespeito com o trabalhador merecidamente aposentado.

                A essa realidade, cabe ao professor aposentado e, claro, a todos os trabalhadores aposentados firmarem-se na ideia de que a interrupção do ciclo de trabalho não pode jamais interromper o ciclo da vida. Tal ciclo diz respeito à constante transformação dos indivíduos que devem caminhar de modo íntimo com aquilo que é essencialmente humano, que é a convergência plena com a felicidade. A interrupção disso será uma interrupção com a vida. O professor aposentado é aquele que ao longo das décadas educou os mais jovens para nunca fazerem tal interrupção. Ele alimentou os sonhos e o futuro da nova geração sentada a sua frente. O vínculo do professor aposentado com a vida, ao longo de sua carreira, é inquestionável. Agora aposentado, é seu direito que tal vínculo seja inquebrável para si dentro de sua nova realidade.

                O Brasil necessita dimensionar e apresentar reais perspectivas aos profissionais aposentados, entre eles, os professores. Nesse sentido, imperativo a definição de uma política que valorize o professor aposentado e que lhes ofereça os mecanismos de plena dignidade após os longos anos de docência.

                O Sinpro-Sorocaba saúda todos os docentes aposentados do Brasil e lhes deseja um feliz e honrado Dia do Professor Aposentado.