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O 1° de abril que, infelizmente, não foi mentira


Data: 01/04/2019

Fonte: Táscia Souza, Contee


No clássico distópico “1984”, do escritor inglês George Orwell, o Ministério da Verdade é o órgão responsável pela propaganda e pelo revisionismo histórico, onde o trabalho é reescrever artigos de jornais do passado, de modo que o registro seja alterado para estar de acordo com a ideologia do governo do “Grande Irmão”. Talvez seja essa a função que o governo Bolsonaro, tão afeito ao culto da personalidade quanto o da ficção — e, ao que tudo indica, tão tirano quanto —, atribua ao seu Ministério da Defesa ao determinar que a pasta dê as “comemorações devidas” aos 55 anos do golpe civil-militar de 1° de abril de 1964. A própria antecipação da data, aliás, uma velha prática das Forças Armadas para fugir do simbolismo de terem orquestrado uma falaciosa “revolução democrática” em pleno e folclórico dia dos mentirosos, é prova cabal de que a preocupação com a verdade e/ou com a memória é inexistente. Assim como a preocupação com a justiça. Nesse sentido, o Ministério da Verdade construtor de mentiras do romance parece mesmo equivaler a um Mistério da Defesa defensor de injustiças.

É preciso que não sucumbamos, porém, à novilíngua do governo Bolsonaro, que, inclusive, proibiu a utilização dos termos “golpe” e “ditadura” nas matérias produzidas pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Em português claro, seguindo as definições do dicionário, golpe de Estado é o “ato de se apoderar, pela força, do governo estabelecido, para implantar um novo sistema governamental, sem aprovação do povo”, ao passo de que ditadura é o “Governo autoritário, unipessoal ou colegiado, caracterizado pela tomada do poder político, com o apoio das Forças Armadas, em desrespeito às leis em vigor, com a consequente subordinação dos órgãos legislativos e judiciários, a suspensão das eleições e do estado de direito, com medidas controladoras da liberdade individual, repressão da livre expressão, censura da imprensa e ausência de regras transparentes em relação ao processo de sucessão governamental”. Foi isso o que houve no Brasil: um GOLPE, que derrubou o presidente João Goulart no dia 1° de abril de 1964, seguido por uma DITADURA, que durou 21 anos.

Dando algum crédito, contudo, aos que preferem ultrapassar a simplicidade dos conceitos dicionarizados, é fundamental reconhecer também que foi mais do que isso: foi um enredo lúgubre, marcado por inúmeras violações de direitos humanos, sobretudo torturas, assassinatos e desaparecimentos forçados, praticadas diretamente pelo Estado brasileiro — ou com sua conivência — ao longo das mais de duas décadas.

Há um texto do dramaturgo romeno Matéi Visniec, intitulado “A palavra progresso na boca de minha mãe soava terrivelmente falsa”, em que diz que “Nesse país uma mãe feliz é uma mãe que sabe onde estão enterrados seus filhos. Uma mãe feliz é uma mãe que pode tomar conta à vontade de uma tumba e que tem certeza de que nessa tumba se encontra o corpo de seu filho, e não um cadáver encontrado ao acaso. Uma mãe feliz é uma mãe que pode chorar o quanto quiser ao lado da tumba que abriga as ossadas de seu filho, e não de um outro qualquer.”

Pois bem. Centenas de mães, neste país, não sabem onde estão enterrados os corpos de seus filhos. Neste país, centenas de mães e pais, esposas e maridos, filhos e sobrinhos, avós e netos não sabem sequer se os corpos de seus parentes mortos foram um dia sepultados. Não só neste país, aliás. Milhares permanecem emparedados no desconhecimento na Argentina, no Chile, no conjunto da América Latina. Comemorar o que causou essas mortes é matar as vítimas de novo. Celebrar o sofrimento dessas famílias é manter sua condenação perpétua à escuridão do desconhecimento, da sonegação de informações, da censura, da ocultação de cadáveres, da violência e da repressão, como praticado ao longo ditadura civil-militar brasileira. Não repudiar esse crime histórico que foi o golpe de 1964 e tudo de nefasto que a ele seguiu é condenar toda uma sociedade a uma morte em vida.

Era para não ser esquecido. Era para nunca mais ter acontecido.